quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Infante

Lembro-me de ti, ao longe e tão perto, 
Nos cheiros, nas cores, nas gargalhadas e na relva.
Lembro-me de ti a rir, 
Lembro-te de ti a sonhar.

Sei que partiste e pensei nunca mais voltar a ver-te.
Achei-te blindado algures no éter dos sonhos,
nunca imaginei ser possível encarar-te.
Encarnar-te.

Ultimamente vejo-te de soslaio,
Ao longe, sempre ao longe.
Sei que me rondas e me vês também,
nunca te aproximas nem te mostras.
És cauteloso, sabes que a tua pureza é preciosa
e é assim que a tratas, com delicado cuidado.
Fazes bem. Fazes-me bem.

Saber que ainda existes é satisfação suficiente para mim.
Sei que nos voltaremos a ver, a falar;
Quem sabe poderemos regressar a nós
e às nossas naturais distâncias.

Ensinaste-me a amar por inteiro,
encheste-me o peito de luz e brilho,
Mas foste quebrado por essa tristeza imensa
e partiste.

Irónico, não é? Como quem tanto te amou tenha sido quem te destruiu.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Como explicar o que nunca aprendi?


Vou ser Pai!

A felicidade é imensa e a ansiedade cresce a cada dia que passa. No início o entusiasmo é contido, temeroso, o sorriso é censurado pela racionalidade de que algo pode acontecer, as circunstâncias podem mudar e ainda é tudo muito recente. Aguardemos...
E os dias passam, e vem a primeira consulta e ele lá está. Espera, ele? Aquela mancha ali? "Sim, cá está!". Bem, mas se é essa mancha, então estava ali outra. Não deve ser..."Repare como está aqui, perfeitamente nítido" diz a médica enquanto tinha já movido o foco para a outra mancha que lá estava. Calma Doutora, vá devagar que a vista é perspicaz mas o coração é pequeno: estão aí dois! Bem nitidamente os vi, de facto. E eis que surgem as palavras profissionais "Hmm...esperem...parece que há aqui mais um...Sim, confirma-se: são gémeos!".
Ora bem, eu estava preparado para a confirmação da gravidez - os vários testes feitos não davam margem para dúvidas - mas hoje só vinha preparado para saber Sim ou Não, ninguém me avisou que os ia poder ver, nem tão pouco que podiam ser dois. Já? Este projeto já está em curso e eu ainda não avaliei todas as suas possibilidades, alternativas, variáveis. E são já dois, para que não haja espaço para ponderações de quem julga manietar o mundo e acaba marioneta.

A Ana não sabe se ri ou se chore e está mais bonita que nunca, mas tudo se desenrola lá ao fundo, na realidade, esse universo alternativo onde eu ainda não tinha entrado. Como assim, já estão aí?

Viemos para casa e nesse dia percebi que tudo tinha mudado. Mas calma, rapaz; Esta é uma aventura que querias para ti e tudo está bem, tudo vai correr bem. Não te apresses nem te aflijas, terás tempo para tomar o controlo desta situação e resolverás todos os pendentes a tempo. Espera. Ouve bem o que disseste. Como é que alguém que vai ser Pai pode ser tão ingénuo? Mas tu sabes lá o que aí vem! Estás lá preparado para isto, vai com calma mas faz-te ao caminho porque o tempo está a contar e tens muito para aprender.
Os dias passaram e a nova consulta estava já aí à porta. Fomos, felizes, na esperança de os poder ver novamente. Lá estavam: Perfeitos, redondos, cheios de tanto e de tão pouco. Mini-milímetros de gente...! E de repente a sala enche-se de um som que reconheço mas que mais uma vez me apanhou desprevenido: isto é o coração?! "Bom, na verdade é apenas o batimento cardíaco porque o coração ainda não está formado"... Pois, compreendo: o meu também não está! O meu pobre coração não está mesmo ainda formado para isto!
É tudo demasiado vertiginoso e nem parece real que nos esteja mesmo a acontecer a nós. Os tempos não têm sido fáceis e a fluidez de tudo isto está a assustar-me, não sei se consigo acreditar que tudo possa correr bem, sem sustos ou sobressaltos. Calma, vamos esperar Ana, entusiasmemo-nos mas com moderação. O pseudo-Pai que existe em mim resolveu pôr alguma água na fervura...Mas os corações estavam lá e batiam a um ritmo alucinante, garanto que não há ribombar mais forte do que este: era Vida!

 Foi neste ponto que parei e olhei para mim. Não olhei no espelho, não vi fotografias de criança - olhei para mim. Como é que eu algum dia poderei explicar aos meus filhos ou filhas, aquilo que nunca aprendi? Eu sou uma criança, uma irresponsável criança-em-potência dentro de um responsável adulto. Serei capaz?

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Triunfo dos Porcos


        Lembro-me de ainda não ser adolescente quando fui pela primeira vez ao jardim zoológico. Estava um calor secante e os macacos saltavam de um lado para o outro libertando daquelas bocas de mau hálito um chinfrim de sons semelhante ao som de um eunuco com o cio. Naquela altura os animais estavam lá e nós visitávamo-los. Hoje em dia já é possível ser visitado por animais não domésticos e eu fui testemunha de tal facto quando fui ao cinema recentemente.
            O filme era mudo (novas tendências da indústria cinematográfica) e após ter-me sentado e desligado o telemóvel começaram a chegar os primeiros animais. O Papa-Formigas é uma espécie fenotipicamente única e sentou-se ao meu lado. Tem um focinho que parece um tubo de um aspirador e de forma hábil chupa sofregamente as pipocas esgadanhando os cantos do pacote para conseguir açambarcar os restos. Escusado será dizer que os primeiro quinze minutos do filme foram passados a ouvir este animal lambuzando as pipocas. Infelizmente, o Papa-Formigas tinha vindo acompanhado por duas Hienas. As Hienas têm um sorriso escancarado que parece brilhar no escuro graças aos tratamentos a laser que eliminam as manchas da sua actividade predatória. O grande problema das Hienas é que falam durante o filme e riem-se com as suas vozes esganiçadas e estrídulas. Falam sobre a manicura às unhas micóticas, sobre o alisamento capilar das suas jubas quase inexistentes, sobre o síndrome do cólon irritável (vulgo dor de barriga que antecede uma diarreia monumental) e sobre os sapatos que já não cabem nas patas porque o calos já são muitos. Enfim, enquanto as Hienas falavam e o Papa-Formigas afocinhava nas pipocas, a minha frustração ia crescendo.
            Outra espécie que deambula frequentemente pelas salas de cinema é o Camelo. O Camelo tem um comportamento típico. Senta-se, e do princípio ao fim do filme manda piadas inócuas, inanes e insensíveis relativamente às quais se ri como um jumento fustigado por carraças bipolares. Obviamente só se ri ele e os outros Camelos da sala, particularmente em cenas de sexo. Para o Camelo, as cenas de sexo são o oásis do deserto da sua vida passada a olhar para as boças que tem em vez de tomates.
            Certo dia sentou-se ao meu lado um Papagaio. Este animal antecipava todas as cenas do filme (a besta já o tinha visto, com certeza) e palrava-as constantemente. Como devem imaginar, isto é sem dúvida frustrante para quem tenta ver o filme pela primeira vez. O Papagaio também faz uma coisa com frequência que é atender o telemóvel. Primeiro deixa tocar insistentemente para que toda a gente saiba que ele tem um telemóvel da nova geração e depois atende e regurgita um discurso vápido e mentecapto.
            Uma outra espécie que também visita as salas de cinema e que habitualmente se senta atrás de nós é o Antílope. Este animal anda frequentemente irrequieto e tem membros inferiores maiores que qualquer animal que sofra de acromegalia. Para além de ser comprido, alberga um exército de bichos carpinteiros que não têm facção sindical e que portanto trabalham que nem mouros o ano inteiro, rilhando, estropiando e incomodando. Resultado final, o Antílope esperneia, mexe, remexe, encosta, enrosca, “se abre”, “se mostra” para quem se situa no seu raio. Muitas vezes fico à frente de um Antílope que pontapeia as costas da minha cadeira vezes sem conta, dando a impressão que eu sofro de síndrome de Tourette, ou mioclonias de bêbedo com síndrome de abstinência.  
            Por favor, se querem ir ao cinema desliguem o telemóvel, sentem-se e disfrutem do filme. Guardem os vossos comentários para o fim. Se tiverem diarreia tomem um comprimido de cloridrato de loperamida (à venda em qualquer farmácia). E, acima de tudo, não incomodem terceiros que também pagaram para ver o filme e não merecem ser alvos de comportamento animalesco desregrado.  

Ir ao cinema tem muito que se lhe diga...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Como tudo era

Cada vez que oiço esse som
Cada vez que a melodia chega até mim
Reverto até a um tempo ido
Um tempo que teima em não voltar

O som sussurra-me vive
Vive por todos os momentos em que me escutavas
E pensavas em viver
Não voltes atrás na tua promessa

Estás agora à tua secretária
A pensar em mim em vez de dormir
Num tempo que nada pode apenas ilumina
E assim será até a força permitir

Um bom voto de boa noite criança
Não sei onde dormes
Seja no frio cimento do pavimento...

...Seja na palha acolhedora de um lar
Decansa seguro, estarei aqui
Para o que der e vier...para amar

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Vá, faça força que já vejo a cabecinha...


Depois de muito ler sobre vaginite atrófica; após noites contínuas indagando sobre os métodos de inspecção vaginal com o uso do espéculo e da técnica de palpação bimanual; após horas e horas de leitura funda sobre a patologia do aparelho reprodutor feminino, e depois de um exame oral e escrito, eis que me sinto com tempo para expor uma grande falácia dos tempos modernos, falácia essa "perpetuada" ("rais parta o acordo ortográfico") por uma indústria cinematográfica asséptica de impurezas, pelas revistas femininas que retratam as mulheres grávidas aplicando camadas de photoshop (ou como o meu pai diz "camadas betuminosas de tintas") e pelos anúncios televisivos que mostram as grávidas no fim do terceiro trimestre com sorrisos escancarados dizendo - "Eu uso creme hidratante à base de óleo de flores que nascem no cume do monte Kuntuntaipai para que a minha pele se sinta plena de vitalidade".

Antes de começar o meu estágio em Ginecologia e Obstetrícia nada sabia sobre o que se passa nas salas de parto. Um grande amigo meu costumava dizer-me que um parto "é um campo de batalha" mas eu nunca decidira aprofundar a veracidade daquela declaração até que fui confrontado com a dura realidade. Na minha primeira aula prática assisti a um parto vaginal. Há quem diga que há pessoas que "nascem para uma vida de merda", mas eu nunca pensei que esta expressão pudesse ser seguida tão à letra. Nessa minha primeira aula prática, a senhora que "dava à luz" o seu rebento tanto puxou e fez força que o inevitável relaxamento esfíncteriano se produziu e deu aso a uma torrente excrementícia. Por outras palavras, borrou-se toda... O puto lá nasceu sem problemas, mas fiquei a pensar que o parto afinal de contas era um fenómeno que diferia muito dos cenários em que o pai está especado de câmara de filmar na mão e a mulher solta um "ai ai ai" semelhante a um "ai ai ai" da cólica abdominal dos obstipados crónicos. O meu segundo parto ainda foi melhor. Pensava eu que a criancinha que aí vinha se tinha livrado da torrente de merda (há mães que conseguem puxar por um lado e contrair por outro, digo eu...) quando constatei que afinal era cabeçudo. Crianças com cabeças grandes são uma chatice para a mãe que vai fazendo força. Mas a medicina contemporânea arranjou uma maneira de aliviar o parto dos cabeçudos. Faz-se uma incisão na vagina, até ao músculo, para que o canal fique mais amplo - "Ó pai, filma lá a tua mulher agora com uma laceração de metro e pensa que durante uns tempos não vais ter fruta..."

Há, no entanto, situações que chegam ao absurdo. Um amigo meu que estava de urgência na sala de partos presenciou a chegada de uma adolescente de um meio sócio-económico desfavorável (na minha terra diz-se pobre e com pouca educação) em trabalho de parto. Enquanto a grávida fazia força e berrava, o meu amigo constatou que não saiam excrementos mas sim esparguete... - "Ó Jim, esparguete? Sim, esparguete..." - A senhora tinha lombrigas, e pelos vistos também queriam nascer, vir ao mundo, receber a luz do senhor...

Um parto tem muito que se lhe diga...

sábado, 11 de fevereiro de 2012

http://www.bbc.co.uk/sport/0/football/16996060

Não sei se têm seguido a polémica entre Suárez e Evra. Pois se não, façam favor de desconectarem-se deste blog... Brinco, podem ler na mesma. Ha ha piadinha...bom...

Pois hoje essa polémica teve um clímax aquando do jogo entre o Manchester United e o Liverpool. No típico aperto de mão amigável antes do combate, Luis Suárez recusou-se a apertar a mão de Patrice Evra, levando este último a insurgir-se e a quase forçá-lo a voltar a trás. Ora, na minha opinião há dois aspectos que merecem inspecção de perto (sim, é sábado à noite e ando eu a avaliar de perto um aperto de mão entre dois futebolistas. A minha vida social oficialmente deu o berro):
1- Que um gajo ache que o outro TEM de o cumprimentar.
Ora...eu simpatizo completamente com o Evra, quantas vezes não nos dá a vontade - seja na rua, num café, no trabalho, seja onde for - de chegar ao pé de um presumidamente conhecido, pegá-lo pelos colarinhos, senão pelos cabelos, e pedir esclarecimentos do tipo. "Ouve lá meu filho da p*** (sim, é no Norte) somos vizinhos, frequentamos o mesmo café, já joguei uma partida de bilhar contigo e com a tua prima, no fim da qual me pediste gentilmente que lhe enfia-se a minha lingua na sua dita cuja por problemas de stress...esquema que só aceitei porque o melhor que tinha a fazer nesse dia era voltar para casa jogar PES - e tu agora só me dignas com um 'tá tudo?'. Mas que é esta M**da?? Exigo mais respeito c***lho! (repito, esta sequência passa-se no Norte)" A partir de agora, no mínimo quero um bacalhau e um sorriso sincero, ouviste. Tá claro?" Mas pronto....há lá uma certa 'etiqueta' chamam-lhe eles. Etiqueta essa que diz que se tem de respeitar a vontade e as emoções dos outros... Eu digo...pó c***lho com etiqueta! MUITO BEM EVRA.

2- Choque de Culturas.
Se não me engano tudo isto começou quando, num encontro entre estas duas equipas (uma das rivalidades mais acesas da história, fora o Al-Ahly e o Al-Masry) o Luis Suárez (Liverpool) no final de uma disputa de bola com Patrice Evra (Man Utd) lhe madou uma boca com a cereja 'negrito'. Ora de um ponto de vista inglês, e até francês, a palavra negrito ou negro pode muito bem ser considerada perjurativa, e é uma palavra que sei por experiência própria não é usual ouvir. Ora, Luís Suárez não é Europeu muito menos inglês (pimba! Boa boca Pedwar) é.....drum roll, SUL-AMERICANO. Negrito, acho, é uma palavra completamente desprovida de sentido racial, pelo menos com o peso que lhe atribuímos na Europa. Tenho cá para mim que o Suárez, ao proferir esse termo, apenas queria elogiar (de acordo com o mito urbano) o tamanho universal do pénis de Evra... Não sei se estou aqui a falar pelo ânus...

Acho que ao fim e ao cabo o que quero mesmo dizer com tudo isto é...amem os vossos filhos, sejam enteados ou não, e façam xixi antes de ir para a cama. Sim, é isso. Espero que tenham melhores coisas para fazer do que estar a lêr isto num sábado à noite. Tenho de ir...o vibrador chama...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Martha Marcy May Marlene

http://www.youtube.com/watch?v=ZPLqzVECEhU

Antes de mais queria transmitir a minha admiração pelo bonito aspecto deste blog, tanta cor faz-me sorrir a lamber o ecrã, pensava que eram chupa-chupas quando entrei aqui. Soube-me a pó, aí o meu consciente 'kicked in' e pensei "caraças António...a lamber o ecrã outra vez..." São instintos, e como se sabe é às vezes difícil lutar contra eles. Comigo são cores, adoro-as.

Quero aqui deixar a recomendação de um filme que vi recentemente e que acho pertinente em relação ao post de arba:a. É uma história de escape, escape em busca de algo mais simples e real e o que corre mal e bem nessa mesma experiência. Quando tudo o resto falha para quem ou o quê nos voltamos? Uma questão deveras importante especialmente neste clima actual. Existirá mesmo um sitio ou uma situação em que nos sintamos completamente realizados e pura e simplesmente bem? Não haverá uma parte de nós que estará sempre em luta connosco próprios em busca de algo mais?

Olhando ao meu redor vejo que há valores que deviam pertencer a um museu... É uma pena... Voltando ao filme recomendado, é em busca de valores, orientação, e acalmia que faltam à sua volta que a protagonista parte. E se escolhe regressar? Será a mesma pessoa que partiu?

PEDWAR from Reagentes signing out...