Lembro-me de ainda não ser adolescente quando fui pela primeira vez ao
jardim zoológico. Estava um calor secante e os macacos saltavam de um lado para
o outro libertando daquelas bocas de mau hálito um chinfrim de sons semelhante
ao som de um eunuco com o cio. Naquela altura os animais estavam lá e nós
visitávamo-los. Hoje em dia já é possível ser visitado por animais não
domésticos e eu fui testemunha de tal facto quando fui ao cinema recentemente.
O filme era mudo (novas tendências
da indústria cinematográfica) e após ter-me sentado e desligado o telemóvel
começaram a chegar os primeiros animais. O Papa-Formigas é uma espécie
fenotipicamente única e sentou-se ao meu lado. Tem um focinho que parece um
tubo de um aspirador e de forma hábil chupa sofregamente as pipocas esgadanhando os
cantos do pacote para conseguir açambarcar os restos. Escusado será dizer que
os primeiro quinze minutos do filme foram passados a ouvir este animal
lambuzando as pipocas. Infelizmente, o Papa-Formigas tinha vindo acompanhado
por duas Hienas. As Hienas têm um sorriso escancarado que parece brilhar no
escuro graças aos tratamentos a laser que eliminam as manchas da sua actividade
predatória. O grande problema das Hienas é que falam durante o filme e riem-se
com as suas vozes esganiçadas e estrídulas. Falam sobre a manicura às unhas
micóticas, sobre o alisamento capilar das suas jubas quase inexistentes, sobre
o síndrome do cólon irritável (vulgo dor de barriga que antecede uma diarreia
monumental) e sobre os sapatos que já não cabem nas patas porque o calos já são
muitos. Enfim, enquanto as Hienas falavam e o Papa-Formigas afocinhava nas
pipocas, a minha frustração ia crescendo.
Outra espécie que deambula
frequentemente pelas salas de cinema é o Camelo. O Camelo tem um comportamento
típico. Senta-se, e do princípio ao fim do filme manda piadas inócuas, inanes e
insensíveis relativamente às quais se ri como um jumento fustigado por carraças
bipolares. Obviamente só se ri ele e os outros Camelos da sala, particularmente
em cenas de sexo. Para o Camelo, as cenas de sexo são o oásis do deserto da sua
vida passada a olhar para as boças que tem em vez de tomates.
Certo dia sentou-se ao meu lado um
Papagaio. Este animal antecipava todas as cenas do filme (a besta já o tinha
visto, com certeza) e palrava-as constantemente. Como devem imaginar, isto é
sem dúvida frustrante para quem tenta ver o filme pela primeira vez. O Papagaio
também faz uma coisa com frequência que é atender o telemóvel. Primeiro deixa
tocar insistentemente para que toda a gente saiba que ele tem um telemóvel da
nova geração e depois atende e regurgita um discurso vápido e mentecapto.
Uma outra espécie que também visita
as salas de cinema e que habitualmente se senta atrás de nós é o Antílope. Este
animal anda frequentemente irrequieto e tem membros inferiores maiores que
qualquer animal que sofra de acromegalia. Para além de ser comprido, alberga um
exército de bichos carpinteiros que não têm facção sindical e que portanto
trabalham que nem mouros o ano inteiro, rilhando, estropiando e incomodando.
Resultado final, o Antílope esperneia, mexe, remexe, encosta, enrosca, “se
abre”, “se mostra” para quem se situa no seu raio. Muitas vezes fico à frente
de um Antílope que pontapeia as costas da minha cadeira vezes sem conta, dando
a impressão que eu sofro de síndrome de Tourette, ou mioclonias de bêbedo com
síndrome de abstinência.
Por favor, se querem ir ao cinema
desliguem o telemóvel, sentem-se e disfrutem do filme. Guardem os vossos
comentários para o fim. Se tiverem diarreia tomem um comprimido de cloridrato
de loperamida (à venda em qualquer farmácia). E, acima de tudo, não incomodem
terceiros que também pagaram para ver o filme e não merecem ser alvos de
comportamento animalesco desregrado.
Ir ao cinema tem
muito que se lhe diga...