quinta-feira, 22 de março de 2012

O Triunfo dos Porcos


        Lembro-me de ainda não ser adolescente quando fui pela primeira vez ao jardim zoológico. Estava um calor secante e os macacos saltavam de um lado para o outro libertando daquelas bocas de mau hálito um chinfrim de sons semelhante ao som de um eunuco com o cio. Naquela altura os animais estavam lá e nós visitávamo-los. Hoje em dia já é possível ser visitado por animais não domésticos e eu fui testemunha de tal facto quando fui ao cinema recentemente.
            O filme era mudo (novas tendências da indústria cinematográfica) e após ter-me sentado e desligado o telemóvel começaram a chegar os primeiros animais. O Papa-Formigas é uma espécie fenotipicamente única e sentou-se ao meu lado. Tem um focinho que parece um tubo de um aspirador e de forma hábil chupa sofregamente as pipocas esgadanhando os cantos do pacote para conseguir açambarcar os restos. Escusado será dizer que os primeiro quinze minutos do filme foram passados a ouvir este animal lambuzando as pipocas. Infelizmente, o Papa-Formigas tinha vindo acompanhado por duas Hienas. As Hienas têm um sorriso escancarado que parece brilhar no escuro graças aos tratamentos a laser que eliminam as manchas da sua actividade predatória. O grande problema das Hienas é que falam durante o filme e riem-se com as suas vozes esganiçadas e estrídulas. Falam sobre a manicura às unhas micóticas, sobre o alisamento capilar das suas jubas quase inexistentes, sobre o síndrome do cólon irritável (vulgo dor de barriga que antecede uma diarreia monumental) e sobre os sapatos que já não cabem nas patas porque o calos já são muitos. Enfim, enquanto as Hienas falavam e o Papa-Formigas afocinhava nas pipocas, a minha frustração ia crescendo.
            Outra espécie que deambula frequentemente pelas salas de cinema é o Camelo. O Camelo tem um comportamento típico. Senta-se, e do princípio ao fim do filme manda piadas inócuas, inanes e insensíveis relativamente às quais se ri como um jumento fustigado por carraças bipolares. Obviamente só se ri ele e os outros Camelos da sala, particularmente em cenas de sexo. Para o Camelo, as cenas de sexo são o oásis do deserto da sua vida passada a olhar para as boças que tem em vez de tomates.
            Certo dia sentou-se ao meu lado um Papagaio. Este animal antecipava todas as cenas do filme (a besta já o tinha visto, com certeza) e palrava-as constantemente. Como devem imaginar, isto é sem dúvida frustrante para quem tenta ver o filme pela primeira vez. O Papagaio também faz uma coisa com frequência que é atender o telemóvel. Primeiro deixa tocar insistentemente para que toda a gente saiba que ele tem um telemóvel da nova geração e depois atende e regurgita um discurso vápido e mentecapto.
            Uma outra espécie que também visita as salas de cinema e que habitualmente se senta atrás de nós é o Antílope. Este animal anda frequentemente irrequieto e tem membros inferiores maiores que qualquer animal que sofra de acromegalia. Para além de ser comprido, alberga um exército de bichos carpinteiros que não têm facção sindical e que portanto trabalham que nem mouros o ano inteiro, rilhando, estropiando e incomodando. Resultado final, o Antílope esperneia, mexe, remexe, encosta, enrosca, “se abre”, “se mostra” para quem se situa no seu raio. Muitas vezes fico à frente de um Antílope que pontapeia as costas da minha cadeira vezes sem conta, dando a impressão que eu sofro de síndrome de Tourette, ou mioclonias de bêbedo com síndrome de abstinência.  
            Por favor, se querem ir ao cinema desliguem o telemóvel, sentem-se e disfrutem do filme. Guardem os vossos comentários para o fim. Se tiverem diarreia tomem um comprimido de cloridrato de loperamida (à venda em qualquer farmácia). E, acima de tudo, não incomodem terceiros que também pagaram para ver o filme e não merecem ser alvos de comportamento animalesco desregrado.  

Ir ao cinema tem muito que se lhe diga...

2 comentários:

  1. Muito bom, meu amigo!! Quem não sofreu nesse verdadeiro zoológico que é o cinema que atire a primeira pedra! Mas que atire com força!!!

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  2. "Para o Camelo, as cenas de sexo são o oásis do deserto da sua vida passada a olhar para as boças que tem em vez de tomates." Como não ver a beleza desta imagem...??

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